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Desempregados, esses criminosos

Publicado em Abril 2011 no Notícias de Santo Tirso

Nos EUA os cidadãos condenados em liberdade condicional têm de se apresentar frequentemente aos seus agentes. Em Inglaterra os hooligans referenciados têm de se apresentar na esquadra de polícia aos dias de jogo. Em Portugal os desempregados têm de se apresentar no Centro de Emprego regularmente.

Esta lei é tão idiota quanto quem a criou, e só poderia ser implementada num país como o nosso, que há decadas é governado por pessoas sem o mínimo de bom senso. Gente incompetente e primária que não enxerga as consequências das suas ideias “peregrinas”.

Nessa visita, os desempregados têm de levar consigo provas de que estiveram à procura de emprego. Ou levam um formulário (previamente fornecido) carimbado por empresas onde supostamente estiveram a pedir emprego, ou então impressões de e-mails enviados candidatando-se a empregos.

Falsificar e-mails ou pedir carimbos em empresas é tão fácil, quanto óbvio é o facto, de a procura pró-activa de emprego beneficiar o desempregado e não quem o controla. Daí ser estúpido querer fiscalizar desta maneira.

Se já é penoso estar em situação de desemprego, mais triste é ter esta obrigação de apresentar comprovativos, como forma de controlo de um subsídio que, se a pessoa o tem, é porque tem direito a ele, porque trabalhou e descontou para tal.

Para além do mais, se algum dos desempregados faltar à visita (sem justificação) ou não apresentar o número mínimo de comprovativos de procura de emprego, logo lhe é retirado o subsídio. O tal para o qual descontou, e que por direito recebe.

Se tudo isto choca, o que dizer do seguinte absurdo: Se os desempregados quiserem deslocar-se ao estrangeiro, têm de avisar o Centro de Emprego (!!). E se se ausentarem mais de 30 dias têm de dar conta com 30 dias de antecedência (!!).

Pior do que a humilhação de ter estas obrigações – que fazem dos desempregados uns “criminosos” – é ainda ter a lata de os convocar para reuniões de grupo, onde um qualquer funcionário do Centro de Emprego os trata como delinquentes.

Esse funcionário (que não sabe o que é sofrer por estar desempregado, porque o seu emprego é garantido, e não pode ser despedido por mais incompetente que seja) insinua que a responsabilidade de estarem no desemprego é dos próprios, e acusa-os de estarem acomodados ao subsídio.

Como pode gente desta, sem qualquer sensibilidade, falar desta forma e nestes termos a pessoas com 40 ou 50 ou 60 anos que – na sua maioria – trabalharam toda a vida precariamente para poder ter um dia-a-dia minimamente digno, e dar aos seus filhos uma vida melhor.

Não é desta forma repugnante e desrespeitosa que se tratam os desempregados. Eles não cometeram crime algum ou contribuiram de alguma forma para o problema de desemprego. Ao invés, sofrem na pele as consequências de políticas erradas.

Se o Governo quer tirar os desempregados dessa situação (aumentando a produção e fazendo crescer a economia, além de libertar os recursos dos subsídios) deverá pensar em formas de os ajudar verdadeiramente ao invés de os “criminalizar”.