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Classic Cars

Article published in “Motor Clássico” magazine, April 2010

Em minha casa nunca houve grande paixão por carros. À excepção do meu padrinho, um aficionado dos automóveis, toda a gente os considera meros meios de transporte. O essencial sempre foi serem seguros, fiáveis e confortáveis. Este “desinteresse” aplica-se tanto aos novos como aos antigos. Daí a minha dificuldade em convencer pai e avô a restaurar o 520, mas já lá vamos.

O BMW 520 – modelo E12 (1º série 5 que veio substituir os 1500/1800/2000) – foi comprado em 1974 pelo meu avô Eurico e na altura custou cerca de 750 contos. À época era uma “bela máquina” e serviu os meus avós, tios e pais durante mais de 20 anos. Lembro-me de fazer viagens pela antiga nacional até Lisboa e Algarve. Eu e a minha irmã, impacientes nos bancos de trás, até fazíamos o pino. As viagens eram longas mas confortáveis.

Claro que passados 20 anos, haviam carros mais seguros, mais confortáveis e acima de tudo mais económicos. E como o carro servia essencialmente os meus avós, o ar condicionado e a direcção assistida eram uma mais valia que o 520 já não tinha. Foi portanto encostado num armazém lá da quinta e substituído por um mais moderno.

Mas no entretanto, coisas curiosas e interessantes se passaram com o 520. O avô foi membro do Governo de Sá Carneiro, e eram muito próximos, daí o fundador do PSD e ex-Primeiro-Ministro ter sido uma das pessoas que teve o prazer de desfrutar uns passeios, sentado num dos “sofás” do 520. Por causa desta história, os meus amigos apelidam carinhosamente o bólide de “carro do Sá Carneiro”.

Nos anos 80, o meu padrinho acompanhava sempre o Tap Rally de Portugal. E como não tinha carro próprio “pedia emprestado” o carro ao pai. Claro que nessa altura não havia as limitações ou medidas de segurança que há agora, e assim sendo, o 520 fez várias classificativas do Rally. Houve dias em que chegou a casa com a matrícula pendurada, algo que tinha de ser logo reparado antes de o pai ver.

Nessa altura, o meu padrinho juntamente com um amigo, intrometia-se em tudo o que era equipa oficial e teve contacto com grandes pilotos de nível mundial. Numa dessas ocasiões, em 1980, Walter Rohrl (que nesse ano se sagraria campeão do mundo em Fiat 131 Abarth da Martini) levou o amigo do meu padrinho no carro oficial a dar “uma volta”, e ele foi atrás no 520 com o navegador Christian Geistdörfer. Este, no final diz ao meu padrinho “this is a great car and you drive it so well, but please don´t try to do the same as Walter, because this family car is not prepared to go so fast“.

Desde o dia em que se encostou o 520 eu disse ao meu avô que o queria quando fosse maior de idade. Alimentei esse “sonho” durante alguns anos. O facto é que fiz 18, tirei a carta, mas não conseguia convencer ninguém a restaurar o carro que já estava parado há cerca de 10 anos.

Finalmente consegui persuadir avô e levei o BMW para a Figueira da Foz onde o pai da minha namorada possuía uma oficina e tinha especial gosto por restaurar clássicos. Tinha até clientes que já haviam ganho prémios em concursos com os restauros.

Mais de um ano demorou a recuperação. Ficou impecável. Surpreendi toda a gente, principalmente o meu avô, no dia dos seus 80 anos, quando apareci em Santo Tirso ao volante do “velho” BMW 520.

Surpresos também, ficaram amigos e toda a família, quando nesse mesmo ano a minha irmã mais velha chegou à igreja para se casar no 520 a brilhar. Era a primeira neta a casar-se e foi naquele carro que chegou solteira e partiu casada.